Quando o corpo consente – Leiam esse livro!

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A doula Gisele Muniz, durante um curso sobre trabalho de parto, me indicou a leitura do livro Quando o corpo consente, de Marie Bertherat, Thérèse Bertherat e Paule Bung. É um belíssimo livro! Marie Bertherat é filha de Thérèse, uma das pioneiras da antiginástica, e boa parte do livro é feita de seus diários de gravidez e relatos de parto. Esses textos dialogam com as análises de Thérèse sobre tensões e couraças, complementadas por dicas de exercícios para gestantes. Paule Brung é uma parteira que prepara gestantes para o parto seguindo os princípios da terapia corporal ensinada por Thérèse.
Além das lindas histórias, o livro contém dicas importantes de respiração que tem me ajudado muito nessa espera final do parto. Elas também discutem a questao da dor, como lidar com ela e, de certo modo, aceitá-la, consentindo que o corpo se abra para o turbilhão de energia vital que é o parto. É bom podermos assumir e entender nossos medos, sobretudo num momento onde essas emoções são duramente negadas às parturientes, constantemente incentivadas a optar pela previsibilidade e relativo conforto de uma cesariana ou pelo uso da peridural como promessa de um parto civilizado e sem dor. Ouvir relatos de mulheres que ousaram aceitar o papel de parideiras e que se sentiram recompensadas e empoderadas com essa escolha é muito encorajador.
Quando o corpo consente é um desejo de uma boa hora em forma de livro.

Nana, nenê – fujam desse livro também!

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Uma conhecida me emprestou um livro chamado Nana Nenê, de Gary Ezzo e Robert Buckman, que promete ensinar um método para que os pais eduquem seus bebês para dormir a noite toda até completarem 6 semanas de vida. Contrariando as recomendações do Ministério da Saúde e todos os grupos sérios de apoio ao aleitamento materno, o livro recomenda que, desde seus primeiros dias, o bebê seja enquadrado numa rotina rígida, com horários controlados para a amamentação. A idéia é que é possível treinar os bebês evitando que eles se tornem o centro da vida familiar.
Como todos os livros desse tipo, os autores creem que o benefício do leite materno é somente biológico e rejeitam sua função de acolhimento e aprofundamento do vínculo mãe-bebê. Consideram ainda as práticas da cama familiar, do aleitamento de horários livres e prolongado (2 anos ou mais) e do canguru (a mãe levar o bebê junto de si num sling ou similar) como algo que gera crianças dependentes, sem autonomia e muito exigentes. Falam ainda que tais práticas podem até ter seu porque em países de Terceiro Mundo, mas que seriam inaceitáveis em países mais ricos! Defendem o uso da chupeta e não do peito para confortar os bebês e por aí vai…
Detestei o livro e hoje até descobri que existe um movimento internacional contra ele na internet. Posso falar com base na minha experiência. Minha filha mamou por 2 anos e 2 meses. Pratiquei intensamente a cama familiar até ela completar 5 anos e, de lá pra cá, continuo a fazê-lo em casos de necessidade (doenças, fragilidades emocionais etc.). Sempre amamentei livremente e não só para matar a fome da minha filha, mas como forma de carinho, apoio emocional e aconchego. O resultado foi um criança que com 1 mês de vida acordava apenas 2 vezes de noite e que depois dos 3 meses acordava apenas uma vez. Com 1 ano já comia sozinha e não precisava que lhe dessem comida na boca. Com 1 ano e 5 meses arrumava sozinha, apenas com minha supervisão, a mochila da creche, tirando as roupas suja e colocando no cesto, escolhendo outras para por no lugar. Ela cresceu e se desenvolveu com grande autonomia e senso de responsabilidade.
Pela minha experiência de mamífera, creio que livros como esse podem ser muito prejudiciais ao aleitamento materno, que não é tarefa fácil nas primeriras semanas. Amamentar exclusivamente exige paciência, segurança, apoio e muita calma, o mínimo possível de ansiedade. Imagina conseguir isso se, além de todas as pressões que rolam, a mãe ainda resolver impor horários, rotinas rígidas e cobranças desnecessárias!
Amanentar é sobretudo deixar fluir,seguir o ritmo da natureza e acreditar no seu próprio potencial de mulher/mãe/mamífera capaz de garantir a sobrevivência da cria. É viver um tempo que não se dobra ao relógio e às exigências da produtividade capitalista. Horários rígidos de amamentação só podem ser bons pra preparar a mulher recém-parida pra voltar o mais rápido possível ao ritmo de trabalho, algo contrário à vivência plena e prazeirosa da amamentação.
Se o bebê não dorme de noite, podemos dormir de dia, nos horários em que ele dorme. Eu sempre fiz isso, dormia junto com minha filha. Para isso serve a licença-maternidade! E ninguém passa a vida toda acordando pra mamar. Toda criança passa a dormir em alguns meses. É só ter calma e paciência. Pode acreditar!

Oração para Nossa Senhora do Bom Parto

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Não sou católica e nem sigo nenhuma religião, mas me considero uma pessoa espiritualizada. Achei linda a oração de Nossa Senhora do Bom Parto e resolvi compartilhar aqui:
Ó Deus, Senhor da vida para assumir a nossa humanidade, vosso Filho Jesus foi concebido pelo Espírito santo no seio maternoda vossa serva Maria Santíssima. E ela o trouxe à luz, entregando à humanidade o Salvador.
Agradeço-vos, ó Deus, pelo filho que concebi e carrego em meu ventre. É quase chegada a hora de vê-lo nascer.
Que meu filho consiga ver a luz do dia, amparado por vossa mão carinhosa. Desejo sentir a presença materna de Maria na hora do parto, fazendo-me forte e muito serena, plena de alegria de poder gerar.
A ela dirijo minha súplica: Ó Maria, que fostes agraciada com um parto feliz, assisti-me na hora do meu parto e rogai a Deus por mim. Amém!

Todos juntos somos fortes

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O disco Os Saltimbancos foi fundamental para minha formação política e como ser humano. Era o ano de 1977 e, em plena ditadura militar, Chico Buarque traduziu e adaptou o musical infantil de Sergio Bardotti e Luiz Enriquez. Inspirado no conto Os músicos de Bremen, publicado pelos irmãos Grimm, Os Saltimbancos contava a história de quatro animais oprimidos pelos seus donos que se revoltam com a situação e fundam uma comuna autônoma, não sem antes aplicar uma lição em seus opressores.
As músicas são lindas, mas a que mais me ensinou foi a que dizia que, se sozinhos somos frágeis, unindo as forças, “todos juntos somos fortes”:

Uma gata, o que é que tem?
– As unhas
E a galinha, o que é que tem?
– O bico
Dito assim, parece até ridículo
Um bichinho se assanhar
E o jumento, o que é que tem?
– As patas
E o cachorro, o que é que tem?
– Os dentes
Ponha tudo junto e de repente vamos ver o que é que dá
Junte um bico com dez unhas
Quatro patas, trinta dentes
E o valente dos valentes
Ainda vai te respeitar
Todos juntos somos fortes
Somos flecha e somos arco
Todos nós no mesmo barco
Não há nada pra temer
– Ao meu lado há um amigo
Que é preciso proteger
Todos juntos somos fortes
Não há nada pra temer
Uma gata, o que é que é?
– Esperta
E o jumento, o que é que é?
– Paciente
Não é grande coisa realmente
Prum bichinho se assanhar
E o cachorro, o que é que é?
– Leal
E a galinha, o que é que é?
– Teimosa
Não parece mesmo grande coisa
Vamos ver no que é que dá
Esperteza, Paciência
Lealdade, Teimosia
E mais dia menos dia
A lei da selva vai mudar
Todos juntos somos fortes
Somos flecha e somos arco
Todos nós no mesmo barco
Não há nada pra temer
– Ao meu lado há um amigo
Que é preciso proteger
Todos juntos somos fortes
Não há nada pra temer
E no mundo dizem que são tantos
Saltimbancos como somos nós.
A capa e o encarte eram lindos e me encantavam. Meu vinil se desgastou de tanto que ouvi e brinquei com seus sons, palavras e imagens. Eu me identificava com a gata, interpretada pela Nara Leão, a única que ao final, justamente por ser preguiçosa, virava artista, uma “superstar”.
Quando minha filha nasceu, consegui comprar para ela uma versão em CD e me emocionava vendo como Os Saltimbancos continuavam a agradar e inspirar outras gerações. Como aconteceu comigo, seu CD se desgastou de tanto que ouvimos e brincamos com ele.
Agora conseguimos comprar um novo CD e Os Saltimbancos andam animando nossos dias de espera. Que a magia do musical inconformista toque o coração de nosso filho!

Um outro mundo é possível

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foto de Adriana Medeiros



Já escrevi aqui sobre a quantidade de palpites, muitos deles infelizes, que as grávidas e recém-paridas ouvem por aí. Mas, justiça seja feita, o fato da gravidez nos tornar assunto público também tem seu lado bonito. Somos olhadas com ternura, sobretudo por mulheres. A cada momento, somos interpeladas com votos de bom parto, de saúde para o bebê, de felicidades e todas as boas energias. Quando reclamamos de algo ou nos estressamos por algum motivo, somos vistas com complacência. A toda hora nos oferecem assentos, comidinhas, água e mimos. Estamos cercadas de delicadezas…
A mulher grávida espalha esperança, é representação da continuidade da vida, da vitória do ser humano sobre a desumanização que nos cerca, sua aura é sagrada. Poucos seres ainda conseguem despertar tantos sentimentos de solidariedade em nossa sociedade quanto a mulher grávida. E isso é muito bonito de sentir e viver.
Gravidez é a possibilidade viva da utopia. Bendito seja o tempo de gestar!

O médico e o monstro

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A faceta mais perversa da mercantilização da saúde é a desumanização dos profissionais da medicina. Praticamente todo mundo tem alguma história ruim de médico pra contar. Erros de diagnósticos, consultas realizadas em 5 minutos sem que o profissional sequer encoste ou olhe nos olhos do paciente, comentários desrespeitosos e, por vezes, preconceituosos. Essa é a rotina tanto no sistema público quanto no sistema privado de saúde. Mas, se existe uma especialidade médica onde essas histórias proliferam esta é a obstetrícia.
Ontem eu estava no consultório do meu obstetra e um casal me contou que foi a um médico no início da gravidez e ouviu o seguinte: “Dizem que o número de cesarianas no Brasil está muito alto, mas isto é reflexo do aumento da informação das mulheres que, por isso, preferem a cirurgia, pois esta é mais prática, mais rápida e indolor. Na verdade, a cesariana nada mais é do que um curativo de luxo.” O casal, que está esperando seu primeiro filho e sonha com parto normal, resolveu trocar de médico na mesma hora, horrorizado com seu discurso frio e tecnicista.
É essa frieza, associada ao preconceito racial e de classe, que marcam as denúncias de maus tratos de parturientes na rede pública. Como aqui no Brasil o desmonte da saúde pública fez com que a mesma virasse “coisa de pobre”, de quem não tem plano de saúde, as gestantes são vistas, muitas vezes, como “fábrica de marginais”, na expressão de Sérgio Cabral, governador reeleito do Rio de Janeiro. Sobretudo se são jovens ou adolescentes. Coisas como “não foi bom na hora de fazer? Agora aguenta!” não raro são ouvidas pelas mulheres pobres quando estão parindo seus filhos, em meio às dores do parto. Uma amiga que pariu num conhecido hospital público do Rio de Janeiro, após 6 horas de trabalho de parto e com 6 cm de dilatação, teve sua bolsa perfurada “sem querer” pela obstetra para acelerar o processo, o que resultou numa cesariana desnecessária, pois tudo estava evoluindo bem. Uma matéria foi publicada recentemente sobre a violência nas maternidades públicas http://guiadobebe.uol.com.br/novidades/violencia_em_maternidades_revela_problemas_na_saude_publica.htm
Mas o problema não é restrito ao serviço público. Também na rede privada, ainda que de modo um pouco mais sutil, as grávidas são desrespeitadas e torturadas por seus médicos. Fiquei chocada com a história de uma amiga que era acompanhada por uma obstetra que ela dizia ser “fria”, mas conhecida pela competência em por gente no mundo. Como de hábito, os médicos da rede privada tem de ser simpáticos e transmitir segurança para não perder clientes. Mas, como Jekyll e Hyde, eles se revelam quando vai se aproximando a hora P. Frase que minha amiga ouviu ao reclamar de dor nas costas ao subir na maca do consultório para exame: “ué, como você quer ter parto normal assim, se já está cheia de dores?” Encorajador, não? O pior veio depois da realização de uma ultrasonografia, na 38a semana. A discrepância entre a idade gestacional e a medição dos ossos do bebê levou a médica a aventar a hipótese da criança nascer com síndrome de Down, ressaltando que era raro e que nada poderia ser feito naquele momento. Ou seja, a informação não serviu para nada mais além de torturar e gerar ansiedade na minha amiga, que estava lindamente concentrada em parir seu filho de forma natural.
Claro que existem muitos médicos que não compactuam com isso e remam contra a corrente. Mas são poucos e são guerreiros, pois esbarram no descrédito dos seus colegas e mesmo em ameaças de conselhos e outros órgãos que os pressionam, por exemplo, a não realizarem partos domiciliares. Afinal, o parto em casa “quebra a firma” da indústria da medicalização da vida, né?
Por isso, é tão importante a escolha do obstetra. As doulas sempre dizem que ser obstetra é uma arte e não é pra qualquer um. O profissional tem de reconhecer que, em condições normais, ele é apenas um coadjuvante de um processo comandado pela mãe e pelo bebê. Tem de respeitar desejos da parturiente, bem como o tempo do nascer. E isso requer que o médico reveja criticamente a sua própria formação e o sistema de saúde em que ele se insere. Requer também sensibilidade, humanidade e respeito ao outro, seja de que classe ou raça for.
Existem vários sites que podem ajudar nessa escolha e que trazem questionários paras as grávidas levarem nas consultas e assim testarem seus médicos, de forma a saberem se eles correspondem às suas expectativas em relação ao acompanhamento da gravidez e do parto. Um deles é este aqui: http://partonobrasil.blogspot.com/