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O médico e o monstro

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A faceta mais perversa da mercantilização da saúde é a desumanização dos profissionais da medicina. Praticamente todo mundo tem alguma história ruim de médico pra contar. Erros de diagnósticos, consultas realizadas em 5 minutos sem que o profissional sequer encoste ou olhe nos olhos do paciente, comentários desrespeitosos e, por vezes, preconceituosos. Essa é a rotina tanto no sistema público quanto no sistema privado de saúde. Mas, se existe uma especialidade médica onde essas histórias proliferam esta é a obstetrícia.
Ontem eu estava no consultório do meu obstetra e um casal me contou que foi a um médico no início da gravidez e ouviu o seguinte: “Dizem que o número de cesarianas no Brasil está muito alto, mas isto é reflexo do aumento da informação das mulheres que, por isso, preferem a cirurgia, pois esta é mais prática, mais rápida e indolor. Na verdade, a cesariana nada mais é do que um curativo de luxo.” O casal, que está esperando seu primeiro filho e sonha com parto normal, resolveu trocar de médico na mesma hora, horrorizado com seu discurso frio e tecnicista.
É essa frieza, associada ao preconceito racial e de classe, que marcam as denúncias de maus tratos de parturientes na rede pública. Como aqui no Brasil o desmonte da saúde pública fez com que a mesma virasse “coisa de pobre”, de quem não tem plano de saúde, as gestantes são vistas, muitas vezes, como “fábrica de marginais”, na expressão de Sérgio Cabral, governador reeleito do Rio de Janeiro. Sobretudo se são jovens ou adolescentes. Coisas como “não foi bom na hora de fazer? Agora aguenta!” não raro são ouvidas pelas mulheres pobres quando estão parindo seus filhos, em meio às dores do parto. Uma amiga que pariu num conhecido hospital público do Rio de Janeiro, após 6 horas de trabalho de parto e com 6 cm de dilatação, teve sua bolsa perfurada “sem querer” pela obstetra para acelerar o processo, o que resultou numa cesariana desnecessária, pois tudo estava evoluindo bem. Uma matéria foi publicada recentemente sobre a violência nas maternidades públicas http://guiadobebe.uol.com.br/novidades/violencia_em_maternidades_revela_problemas_na_saude_publica.htm
Mas o problema não é restrito ao serviço público. Também na rede privada, ainda que de modo um pouco mais sutil, as grávidas são desrespeitadas e torturadas por seus médicos. Fiquei chocada com a história de uma amiga que era acompanhada por uma obstetra que ela dizia ser “fria”, mas conhecida pela competência em por gente no mundo. Como de hábito, os médicos da rede privada tem de ser simpáticos e transmitir segurança para não perder clientes. Mas, como Jekyll e Hyde, eles se revelam quando vai se aproximando a hora P. Frase que minha amiga ouviu ao reclamar de dor nas costas ao subir na maca do consultório para exame: “ué, como você quer ter parto normal assim, se já está cheia de dores?” Encorajador, não? O pior veio depois da realização de uma ultrasonografia, na 38a semana. A discrepância entre a idade gestacional e a medição dos ossos do bebê levou a médica a aventar a hipótese da criança nascer com síndrome de Down, ressaltando que era raro e que nada poderia ser feito naquele momento. Ou seja, a informação não serviu para nada mais além de torturar e gerar ansiedade na minha amiga, que estava lindamente concentrada em parir seu filho de forma natural.
Claro que existem muitos médicos que não compactuam com isso e remam contra a corrente. Mas são poucos e são guerreiros, pois esbarram no descrédito dos seus colegas e mesmo em ameaças de conselhos e outros órgãos que os pressionam, por exemplo, a não realizarem partos domiciliares. Afinal, o parto em casa “quebra a firma” da indústria da medicalização da vida, né?
Por isso, é tão importante a escolha do obstetra. As doulas sempre dizem que ser obstetra é uma arte e não é pra qualquer um. O profissional tem de reconhecer que, em condições normais, ele é apenas um coadjuvante de um processo comandado pela mãe e pelo bebê. Tem de respeitar desejos da parturiente, bem como o tempo do nascer. E isso requer que o médico reveja criticamente a sua própria formação e o sistema de saúde em que ele se insere. Requer também sensibilidade, humanidade e respeito ao outro, seja de que classe ou raça for.
Existem vários sites que podem ajudar nessa escolha e que trazem questionários paras as grávidas levarem nas consultas e assim testarem seus médicos, de forma a saberem se eles correspondem às suas expectativas em relação ao acompanhamento da gravidez e do parto. Um deles é este aqui: http://partonobrasil.blogspot.com/
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Quem faz o parto?

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Uma das coisas mais importantes para a mulher grávida é planejar seu parto. O momento de dar a luz é cercado de medos, ansiedades, mas também de sonhos e expectativas. Na nossa sociedade contemporânea, o parto deixou de ser assunto de mulheres e se tornou especialidade médica, retirando nossa autonomia e depositando os rumos desse processo absolutamente fisiológico nas mãos de profissionais. Até a geração de nossas avós, os partos eram feitos em casa e geralmente assistidos por uma parteira, mulher experiente, mas sem formação profissional. Se é fato que a medicalização do nascimento salvou vidas, é também verdade que gerou um comércio que ampliou excessivamente o número de intervenções desnecessárias e perigosas. O Brasil é recordista em número de cesarianas. Enquanto a Organização Mundial da Saúde recomenda que no máximo 15% dos partos sejam cesáreos, por aqui a taxa chega a 43%. Na rede privada, onde é cada vez mais frequente a marcação antecipada da cirurgia, este índice chega a mais de 80%. A anestesia epidural, apresentada como miraculosa promessa de parto sem dor, também não está livre de complicações e consequências indesejáveis, não devendo ser utilizada de forma indiscriminada.
Na contramão disso, muitas mulheres vem optando pelo parto natural e mesmo pelo parto domiciliar, sem intervenções ou com o mínimo possível delas. No entanto, a realização desse sonho, que parece tão corriqueiro, esbarra num obstáculo muitas vezes instransponível: o obstetra. A maior parte dos médicos acredita que são eles, e não as mulheres, que “fazem o parto”. Portanto, se acham no direito de definir procedimentos, datas e tudo o que diz respeito ao momento do nascimento. No entanto, sabemos que quando o parto é realmente natural, fisiológico, quem está no comando é a mulher. O médico somente assiste ao parto.
Nas consultas é raro o médico que vai se opor de cara ao parto natural. A maioria apóia. Mas na hora P é que você conhece verdadeiramente o seu médico. No meu primeiro parto, eu estava totalmente voltada para fazer o natural. Minha filha ia nascer na Casa do Parto Nove Luas, fiz curso de gestantes, nem pensava em cesariana. Como ela passou um pouco da data, na 41a semana o médico resolver partir pra cesariana, coisa que eu nem cogitava. Como senha para a minha aceitação do parto medicalizado, a expressão mágica “sofrimento fetal”. Quando um médico fala isso para uma grávida, ainda mais recém-saída da adolescência e mãe de primeira viagem, as portas da cesariana se abrem. Resultado: uma gravidez excelente, consciente, um lindo processo de gestar e se autoconhecer desembocou numa cirurgia desnecessária. A minha sorte é que tive uma doula e que a cesárea foi realizada na Casa do Parto. Assim, minha filha pode mamar tão logo saiu da minha barriga, tivemos um nascimento na penumbra, ao som da música que escolhemos. O mínimo de respeito ao nascimento foi garantido pelo ambiente da Casa do Parto e pela doula que mandou os médicos, que costuravam minha barriga enquanto eu amamentava minha filha, pararem de debater o desempenho da seleção brasileira de volley.
O sonho de ter a minha filha por parto natural me foi roubado e isso eu nunca terei de volta. Por isso, sempre recomendo às grávidas que tem o mesmo desejo terem cuidado na escolha do obstetra. Não acredite no que ele fala, mas em suas referências, no que você vê e sente. Pergunte na sala de espera quantas mulheres ali tiveram seus filhos com ele e como foram os partos. Informe-se com doulas e parteiras ligadas ao movimento de parto humanizado sobre as suas referências. Empodere-se e não se envergonhe de perguntar TUDO, mesmo as dúvidas mais básicas. E fuja se ele se furtar a responder ou mesmo se disser coisas “deixa isso comigo”, “disso cuido eu”, “tá muito cedo pra você pensar em parto”. Lembre-se de quem está no comando: você, mãe, parideira.
Para quem quiser saber mais sobre esse tema, recomendo o filme Orgasmic Birth.