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Questão de gênero

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A primeira pergunta que uma grávida ouve quando anuncia sua gravidez é “já sabe se é menino ou menina?”. Parece um mantra e é raro ouvir algo diferente. É como se o bebê só se materializasse quando seu sexo biológico é conhecido. Isso gera muita ansiedade: “e aí, já sabe?”, “quando vai ser a ultra?”, “já deu pra ver?”, “saco, queria comprar presentinhos pro bebê!”. Essas são apenas algumas das palavras que ouvi de amigos, familiares e conhecidos.
Durante a gravidez da minha primeira filha, eu estava muito ansiosa para saber o sexo, ainda que tivesse a certeza de que era uma menina. Somente na virada do oitavo para o nono mês, a ultrassonografia revelou o que eu tanto queria saber. Foi um momento de grande emoção. Nesta gravidez atual, se dependesse de mim, teríamos reservado a surpresa para a hora do parto. Mas a minha família estava com muita expectativa e fui vencida pela maioria. Valeu pelo belo momento em que, aos 5 meses, descobrimos que era menino o bebê que carrego em meu ventre.
Em muitos países, o sexo do bebê só é conhecido no momento de seu nascimento. Uma prima que teve sua filha quando morava na Inglaterra me disse que os médicos de lá são avessos a revelar o sexo da criança durante exames pré-natais. Isso me fez pensar por que entre nós a definição “menino ou menina” é importante para as pessoas desde o inciozinho da gravidez.
Penso que isso tem a ver com a origem patriarcal da nossa sociedade, na qual os papéis de “macho” e “fêmea” são estabelecidos na criação familiar desde o nascimento. Sobretudo no que diz respeito aos homens. Experimente vestir um menino de rosa ou presenteá-lo com uma boneca. Eu já dei um boneco bebê para um menino de minha família no seu aniversário de um ano, pois observei que ele gostava de ninar os brinquedos e tratá-los como filho. O presente foi retirado de suas mãos na mesma hora e jamais pude vê-lo brincando com o mesmo em sua casa. Acredito que o boneco deva ter ficado bem guardado em algum canto de armário.
Enquanto meninas são ensinadas a cuidar de suas bonecas, a brincar de casinha, a expressar seus afetos e sensibilidades, meninos devem brincar de carro, luta, bola e videogame. Nada de chorar à toa, pois não é coisa de macho! O resultado são homens dependentes, sem autonomia para cuidar de si mesmos e da casa e, por vezes, insensíveis à sobrecarga de trabalho de suas mulheres que trabalham fora e ainda tem de cuidar dos filhos e do lar.
Em pleno século XXI, tenho salas de aula de universidade repleta de moças. Mas, mesmo conquistando esse espaço antes tão masculino, em geral elas se dizem tímidas para falar em público, se colocar, expressar suas opiniões. Como se seu universo fosse o mundo privado e não o espaço público. Do mesmo modo que suas avós. Que padrões estamos reproduzindõ na criação de nossos filhos? São eles adequados às complexidades que o mundo nos apresenta hoje? Para mim, eles são receita certa de infelicidade.
Acredito que se na criação dos nossos filhos a gente bagunçar um pouco essas diferenças de gênero poderemos ter adultos mais autônomos, felizes, sem preconceitos e abertos para experimentar a vida mais plenamente. Meninos e meninas tem de aprender a cuidar de si mesmos e da casa desde cedo, colaborando com a família. Acho legal menino brincando de boneca e menina jogando bola. Prefiro que ambos usem roupas confortáveis e adequadas ao seu desenvolvimento motor, sem excesso de laços e babados. Não furei a orelha da minha filha quando ela era bebê e deixei esssa decisão para ela tomar quando crescesse. Espero criar meu filho para ser um homem que chora quando tem vontade e que ele se orgulhe disso.
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