Arquivo mensal: novembro 2010

Todos juntos somos fortes

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O disco Os Saltimbancos foi fundamental para minha formação política e como ser humano. Era o ano de 1977 e, em plena ditadura militar, Chico Buarque traduziu e adaptou o musical infantil de Sergio Bardotti e Luiz Enriquez. Inspirado no conto Os músicos de Bremen, publicado pelos irmãos Grimm, Os Saltimbancos contava a história de quatro animais oprimidos pelos seus donos que se revoltam com a situação e fundam uma comuna autônoma, não sem antes aplicar uma lição em seus opressores.
As músicas são lindas, mas a que mais me ensinou foi a que dizia que, se sozinhos somos frágeis, unindo as forças, “todos juntos somos fortes”:

Uma gata, o que é que tem?
– As unhas
E a galinha, o que é que tem?
– O bico
Dito assim, parece até ridículo
Um bichinho se assanhar
E o jumento, o que é que tem?
– As patas
E o cachorro, o que é que tem?
– Os dentes
Ponha tudo junto e de repente vamos ver o que é que dá
Junte um bico com dez unhas
Quatro patas, trinta dentes
E o valente dos valentes
Ainda vai te respeitar
Todos juntos somos fortes
Somos flecha e somos arco
Todos nós no mesmo barco
Não há nada pra temer
– Ao meu lado há um amigo
Que é preciso proteger
Todos juntos somos fortes
Não há nada pra temer
Uma gata, o que é que é?
– Esperta
E o jumento, o que é que é?
– Paciente
Não é grande coisa realmente
Prum bichinho se assanhar
E o cachorro, o que é que é?
– Leal
E a galinha, o que é que é?
– Teimosa
Não parece mesmo grande coisa
Vamos ver no que é que dá
Esperteza, Paciência
Lealdade, Teimosia
E mais dia menos dia
A lei da selva vai mudar
Todos juntos somos fortes
Somos flecha e somos arco
Todos nós no mesmo barco
Não há nada pra temer
– Ao meu lado há um amigo
Que é preciso proteger
Todos juntos somos fortes
Não há nada pra temer
E no mundo dizem que são tantos
Saltimbancos como somos nós.
A capa e o encarte eram lindos e me encantavam. Meu vinil se desgastou de tanto que ouvi e brinquei com seus sons, palavras e imagens. Eu me identificava com a gata, interpretada pela Nara Leão, a única que ao final, justamente por ser preguiçosa, virava artista, uma “superstar”.
Quando minha filha nasceu, consegui comprar para ela uma versão em CD e me emocionava vendo como Os Saltimbancos continuavam a agradar e inspirar outras gerações. Como aconteceu comigo, seu CD se desgastou de tanto que ouvimos e brincamos com ele.
Agora conseguimos comprar um novo CD e Os Saltimbancos andam animando nossos dias de espera. Que a magia do musical inconformista toque o coração de nosso filho!

Um outro mundo é possível

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foto de Adriana Medeiros



Já escrevi aqui sobre a quantidade de palpites, muitos deles infelizes, que as grávidas e recém-paridas ouvem por aí. Mas, justiça seja feita, o fato da gravidez nos tornar assunto público também tem seu lado bonito. Somos olhadas com ternura, sobretudo por mulheres. A cada momento, somos interpeladas com votos de bom parto, de saúde para o bebê, de felicidades e todas as boas energias. Quando reclamamos de algo ou nos estressamos por algum motivo, somos vistas com complacência. A toda hora nos oferecem assentos, comidinhas, água e mimos. Estamos cercadas de delicadezas…
A mulher grávida espalha esperança, é representação da continuidade da vida, da vitória do ser humano sobre a desumanização que nos cerca, sua aura é sagrada. Poucos seres ainda conseguem despertar tantos sentimentos de solidariedade em nossa sociedade quanto a mulher grávida. E isso é muito bonito de sentir e viver.
Gravidez é a possibilidade viva da utopia. Bendito seja o tempo de gestar!