Quem faz o parto?

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Uma das coisas mais importantes para a mulher grávida é planejar seu parto. O momento de dar a luz é cercado de medos, ansiedades, mas também de sonhos e expectativas. Na nossa sociedade contemporânea, o parto deixou de ser assunto de mulheres e se tornou especialidade médica, retirando nossa autonomia e depositando os rumos desse processo absolutamente fisiológico nas mãos de profissionais. Até a geração de nossas avós, os partos eram feitos em casa e geralmente assistidos por uma parteira, mulher experiente, mas sem formação profissional. Se é fato que a medicalização do nascimento salvou vidas, é também verdade que gerou um comércio que ampliou excessivamente o número de intervenções desnecessárias e perigosas. O Brasil é recordista em número de cesarianas. Enquanto a Organização Mundial da Saúde recomenda que no máximo 15% dos partos sejam cesáreos, por aqui a taxa chega a 43%. Na rede privada, onde é cada vez mais frequente a marcação antecipada da cirurgia, este índice chega a mais de 80%. A anestesia epidural, apresentada como miraculosa promessa de parto sem dor, também não está livre de complicações e consequências indesejáveis, não devendo ser utilizada de forma indiscriminada.
Na contramão disso, muitas mulheres vem optando pelo parto natural e mesmo pelo parto domiciliar, sem intervenções ou com o mínimo possível delas. No entanto, a realização desse sonho, que parece tão corriqueiro, esbarra num obstáculo muitas vezes instransponível: o obstetra. A maior parte dos médicos acredita que são eles, e não as mulheres, que “fazem o parto”. Portanto, se acham no direito de definir procedimentos, datas e tudo o que diz respeito ao momento do nascimento. No entanto, sabemos que quando o parto é realmente natural, fisiológico, quem está no comando é a mulher. O médico somente assiste ao parto.
Nas consultas é raro o médico que vai se opor de cara ao parto natural. A maioria apóia. Mas na hora P é que você conhece verdadeiramente o seu médico. No meu primeiro parto, eu estava totalmente voltada para fazer o natural. Minha filha ia nascer na Casa do Parto Nove Luas, fiz curso de gestantes, nem pensava em cesariana. Como ela passou um pouco da data, na 41a semana o médico resolver partir pra cesariana, coisa que eu nem cogitava. Como senha para a minha aceitação do parto medicalizado, a expressão mágica “sofrimento fetal”. Quando um médico fala isso para uma grávida, ainda mais recém-saída da adolescência e mãe de primeira viagem, as portas da cesariana se abrem. Resultado: uma gravidez excelente, consciente, um lindo processo de gestar e se autoconhecer desembocou numa cirurgia desnecessária. A minha sorte é que tive uma doula e que a cesárea foi realizada na Casa do Parto. Assim, minha filha pode mamar tão logo saiu da minha barriga, tivemos um nascimento na penumbra, ao som da música que escolhemos. O mínimo de respeito ao nascimento foi garantido pelo ambiente da Casa do Parto e pela doula que mandou os médicos, que costuravam minha barriga enquanto eu amamentava minha filha, pararem de debater o desempenho da seleção brasileira de volley.
O sonho de ter a minha filha por parto natural me foi roubado e isso eu nunca terei de volta. Por isso, sempre recomendo às grávidas que tem o mesmo desejo terem cuidado na escolha do obstetra. Não acredite no que ele fala, mas em suas referências, no que você vê e sente. Pergunte na sala de espera quantas mulheres ali tiveram seus filhos com ele e como foram os partos. Informe-se com doulas e parteiras ligadas ao movimento de parto humanizado sobre as suas referências. Empodere-se e não se envergonhe de perguntar TUDO, mesmo as dúvidas mais básicas. E fuja se ele se furtar a responder ou mesmo se disser coisas “deixa isso comigo”, “disso cuido eu”, “tá muito cedo pra você pensar em parto”. Lembre-se de quem está no comando: você, mãe, parideira.
Para quem quiser saber mais sobre esse tema, recomendo o filme Orgasmic Birth.
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