Arquivo mensal: outubro 2010

O médico e o monstro

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A faceta mais perversa da mercantilização da saúde é a desumanização dos profissionais da medicina. Praticamente todo mundo tem alguma história ruim de médico pra contar. Erros de diagnósticos, consultas realizadas em 5 minutos sem que o profissional sequer encoste ou olhe nos olhos do paciente, comentários desrespeitosos e, por vezes, preconceituosos. Essa é a rotina tanto no sistema público quanto no sistema privado de saúde. Mas, se existe uma especialidade médica onde essas histórias proliferam esta é a obstetrícia.
Ontem eu estava no consultório do meu obstetra e um casal me contou que foi a um médico no início da gravidez e ouviu o seguinte: “Dizem que o número de cesarianas no Brasil está muito alto, mas isto é reflexo do aumento da informação das mulheres que, por isso, preferem a cirurgia, pois esta é mais prática, mais rápida e indolor. Na verdade, a cesariana nada mais é do que um curativo de luxo.” O casal, que está esperando seu primeiro filho e sonha com parto normal, resolveu trocar de médico na mesma hora, horrorizado com seu discurso frio e tecnicista.
É essa frieza, associada ao preconceito racial e de classe, que marcam as denúncias de maus tratos de parturientes na rede pública. Como aqui no Brasil o desmonte da saúde pública fez com que a mesma virasse “coisa de pobre”, de quem não tem plano de saúde, as gestantes são vistas, muitas vezes, como “fábrica de marginais”, na expressão de Sérgio Cabral, governador reeleito do Rio de Janeiro. Sobretudo se são jovens ou adolescentes. Coisas como “não foi bom na hora de fazer? Agora aguenta!” não raro são ouvidas pelas mulheres pobres quando estão parindo seus filhos, em meio às dores do parto. Uma amiga que pariu num conhecido hospital público do Rio de Janeiro, após 6 horas de trabalho de parto e com 6 cm de dilatação, teve sua bolsa perfurada “sem querer” pela obstetra para acelerar o processo, o que resultou numa cesariana desnecessária, pois tudo estava evoluindo bem. Uma matéria foi publicada recentemente sobre a violência nas maternidades públicas http://guiadobebe.uol.com.br/novidades/violencia_em_maternidades_revela_problemas_na_saude_publica.htm
Mas o problema não é restrito ao serviço público. Também na rede privada, ainda que de modo um pouco mais sutil, as grávidas são desrespeitadas e torturadas por seus médicos. Fiquei chocada com a história de uma amiga que era acompanhada por uma obstetra que ela dizia ser “fria”, mas conhecida pela competência em por gente no mundo. Como de hábito, os médicos da rede privada tem de ser simpáticos e transmitir segurança para não perder clientes. Mas, como Jekyll e Hyde, eles se revelam quando vai se aproximando a hora P. Frase que minha amiga ouviu ao reclamar de dor nas costas ao subir na maca do consultório para exame: “ué, como você quer ter parto normal assim, se já está cheia de dores?” Encorajador, não? O pior veio depois da realização de uma ultrasonografia, na 38a semana. A discrepância entre a idade gestacional e a medição dos ossos do bebê levou a médica a aventar a hipótese da criança nascer com síndrome de Down, ressaltando que era raro e que nada poderia ser feito naquele momento. Ou seja, a informação não serviu para nada mais além de torturar e gerar ansiedade na minha amiga, que estava lindamente concentrada em parir seu filho de forma natural.
Claro que existem muitos médicos que não compactuam com isso e remam contra a corrente. Mas são poucos e são guerreiros, pois esbarram no descrédito dos seus colegas e mesmo em ameaças de conselhos e outros órgãos que os pressionam, por exemplo, a não realizarem partos domiciliares. Afinal, o parto em casa “quebra a firma” da indústria da medicalização da vida, né?
Por isso, é tão importante a escolha do obstetra. As doulas sempre dizem que ser obstetra é uma arte e não é pra qualquer um. O profissional tem de reconhecer que, em condições normais, ele é apenas um coadjuvante de um processo comandado pela mãe e pelo bebê. Tem de respeitar desejos da parturiente, bem como o tempo do nascer. E isso requer que o médico reveja criticamente a sua própria formação e o sistema de saúde em que ele se insere. Requer também sensibilidade, humanidade e respeito ao outro, seja de que classe ou raça for.
Existem vários sites que podem ajudar nessa escolha e que trazem questionários paras as grávidas levarem nas consultas e assim testarem seus médicos, de forma a saberem se eles correspondem às suas expectativas em relação ao acompanhamento da gravidez e do parto. Um deles é este aqui: http://partonobrasil.blogspot.com/
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Nana neném!

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Adoro canções de ninar e o CD acima fez a festa da minha filha de quando ela era bebê  e mesmo até ficar mais crescidinha. São lindas as canções. Na verdade, era ainda uma fita k7 que eu guardo até hoje! Eu vi o CD disponível na barraca de CDs da feira do chorinho em Laranjeiras. É muito bonito e vale a pena. O trabalho de Paulo Tati e Sandra Peres é maravilhoso e um ótimo presente para bebês e casais grávidos.
Eu sentia que essas e outras belas canções de ninar acalmavam não somente a minha filha, mas também a mim e a todo ambiente da casa. Até hoje sei todas as músicas de cor!
Atenção especialmente à música dos sete anõezinhos, que é bem engraçada e fofa, e à participação de Arnaldo Antunes, outro artista cuja presença é garantia de qualidade artística em trabalhos voltados para crianças.
Aqui tem um texto sobre o CD e a importância das canções de ninar, bem como um link para baixar o arquivo: http://ebooksgratis.com.br/livros-ebooks-gratis/audiobooks-e-arquivos-de-audio/infantil-cd-cancoes-de-ninar-colecao-palavra-cantada/

Como alimentar seu bebê – fujam desse livro!

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Ganhei de uma pessoa bem intencionada um livro intitulado Como alimentar seu bebê. Como dar mais saúde e vitalidade ao seu bebê, de Sara Lewis. Estou simplesmente chocada! Isso me fez ver quantas bobagens existem publicadas por aí acerca de cuidados com filhos.
O livro não incentiva a amamentação materna e todo o tempo equipara o leite materno ao leite em pó. Diz que aos 4 meses de vida a criança já necessita de alimentos variados, não se contentando somente com o leite. Diz ainda que, caso a mãe opte por amamentar ao seio, isso deve ser feito no máximo por 1 ano, pois senão a criança fica “viciada” em sugar o mamilo que tal “vício” seria difícil de vencer posteriormente. Isso é uma imensa bobagem, mais um palpite infeliz (ver post abaixo) que posso contestar com minha própria experiência de mulher mamífera. Amamentei minha filha por 2 anos e 2 meses, a despeito de todas as besteiras que ouvia, inclusive do seu antigo pediatra, sobre vícios e excessiva dependência entre mãe e filha. Eu ria, pois, mesmo tendo esse terrível “vício”, minha filha fazia sua própria mochila da creche desde antes dos 2 anos, comia sozinha, sempre foi muito autônoma. Essas pessoas são ignorantes e desconhecem as maravilhosas culturas originárias da América Latina e da África, nas quais a amamentação prolongada por 7 anos ou mais é vista como um cuidado e mesmo garantia da sobrevivência de muitos povos.
No livro, a autora fala ainda do alívio que as mamadeiras e alimentos representam para as mães, pois elas podem ser “liberadas” da amamentação. Eu, que acho amamentar um dos maiores prazeres da vida, vejo nessa frase um absurdo com traços de repressão sexual e também uma visão que serve muito ao capitalismo, já que “se liberar”, nesse caso, é estar disponível para o trabalho alienado.
Mas a autora não para por aí e recomenda alimentos altamente alergênicos a bebês com menos de dois anos de vida. Morango, mel, castanhas, pasta de amendoim, carnes de porco e cordeiro, queijo cheddar são alguns dos ingredientes das receitas indicadas para bebês de até 12 meses!
Esse livro é um desserviço à saúde infantil. Fujam!

Palpite Infeliz

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“Quem é você, que não sabe o que diz? Meu Deus do céu, que palpite infeliz…” A música de Noel Rosa bem poderia servir para 90% dos palpites que as grávidas e recém-paridas ouvem durante todo esse delicado período. “Você já fez uma cesariana? então não pode mais ter parto normal!”, “sua barriga tá muito baixa, cuidado!”, “tem mulher que tem leite fraco e não consegue amamentar…”, “parto normal deixa a mulher larga”, “vc vai aguentar ter parto normal? é muita dor!”, “mas o bebê só mama no peito, você não dá nem uma aguinha pra ele?”. Essas são algumas das frases que costumamos ouvir de parentes, amigos e até de desconhecidos. O pior é que, por vezes, mesmo médicos vem com a conversa de que a mulher não tem leite ou que o leite é fraco e precisa de suplementação de mamadeira.
Para nos empoderarmos e tomarmos as rédeas da gravidez, do parto e da amamentação, é preciso que estejamos bem informadas e muito seguras do que queremos. Existem muitos mitos envolvendo esses processos e basta a barriga despontar para sermos assoladas por eles. Como estamos sensíveis, inseguras às vezes, acabamos sucumbindo a essa “sabedoria” propagada por pessoas que são até bem intencionadas (nem sempre!), mas que ignoram muitas coisas que já são científica e empiricamente comprovadas.
Sobre o parto, é mito que quem faz cesárea uma vez, não possa mais ter parto normal. Há inúmeros relatos em sites como http://www.amigasdoparto.com.br/ que contrariam tal crendice.
Em relação à amamentação, já é sabido que não existe leite fraco, que um bebê se desenvolve muito bem com amamentação exclusiva até 06 meses ou mais, sem precisar de água, chás, sucos e outras bebidas ou comidas. Toda mulher saudável é capaz de amamentar e é possível buscar ajuda em grupos como as Amigas do Peito (http://www.amigasdopeito.org.br/).
É importante procurarmos redes de apoio e profissionais realmente comprometidos com o protagonismo feminino, com a amamentação, com o parto fisiológico.
Enfim, ninguém sabe mais de nossos corpos, vontades e possibilidades do que nós mesmas. Eu, quando estou com paciência, rebato os palpites infelizes com as informações de que disponho. Caso contrário, me limito a sorrir, e sigo em frente fazendo tudo do jeitinho que eu acredito.

Questão de gênero

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A primeira pergunta que uma grávida ouve quando anuncia sua gravidez é “já sabe se é menino ou menina?”. Parece um mantra e é raro ouvir algo diferente. É como se o bebê só se materializasse quando seu sexo biológico é conhecido. Isso gera muita ansiedade: “e aí, já sabe?”, “quando vai ser a ultra?”, “já deu pra ver?”, “saco, queria comprar presentinhos pro bebê!”. Essas são apenas algumas das palavras que ouvi de amigos, familiares e conhecidos.
Durante a gravidez da minha primeira filha, eu estava muito ansiosa para saber o sexo, ainda que tivesse a certeza de que era uma menina. Somente na virada do oitavo para o nono mês, a ultrassonografia revelou o que eu tanto queria saber. Foi um momento de grande emoção. Nesta gravidez atual, se dependesse de mim, teríamos reservado a surpresa para a hora do parto. Mas a minha família estava com muita expectativa e fui vencida pela maioria. Valeu pelo belo momento em que, aos 5 meses, descobrimos que era menino o bebê que carrego em meu ventre.
Em muitos países, o sexo do bebê só é conhecido no momento de seu nascimento. Uma prima que teve sua filha quando morava na Inglaterra me disse que os médicos de lá são avessos a revelar o sexo da criança durante exames pré-natais. Isso me fez pensar por que entre nós a definição “menino ou menina” é importante para as pessoas desde o inciozinho da gravidez.
Penso que isso tem a ver com a origem patriarcal da nossa sociedade, na qual os papéis de “macho” e “fêmea” são estabelecidos na criação familiar desde o nascimento. Sobretudo no que diz respeito aos homens. Experimente vestir um menino de rosa ou presenteá-lo com uma boneca. Eu já dei um boneco bebê para um menino de minha família no seu aniversário de um ano, pois observei que ele gostava de ninar os brinquedos e tratá-los como filho. O presente foi retirado de suas mãos na mesma hora e jamais pude vê-lo brincando com o mesmo em sua casa. Acredito que o boneco deva ter ficado bem guardado em algum canto de armário.
Enquanto meninas são ensinadas a cuidar de suas bonecas, a brincar de casinha, a expressar seus afetos e sensibilidades, meninos devem brincar de carro, luta, bola e videogame. Nada de chorar à toa, pois não é coisa de macho! O resultado são homens dependentes, sem autonomia para cuidar de si mesmos e da casa e, por vezes, insensíveis à sobrecarga de trabalho de suas mulheres que trabalham fora e ainda tem de cuidar dos filhos e do lar.
Em pleno século XXI, tenho salas de aula de universidade repleta de moças. Mas, mesmo conquistando esse espaço antes tão masculino, em geral elas se dizem tímidas para falar em público, se colocar, expressar suas opiniões. Como se seu universo fosse o mundo privado e não o espaço público. Do mesmo modo que suas avós. Que padrões estamos reproduzindõ na criação de nossos filhos? São eles adequados às complexidades que o mundo nos apresenta hoje? Para mim, eles são receita certa de infelicidade.
Acredito que se na criação dos nossos filhos a gente bagunçar um pouco essas diferenças de gênero poderemos ter adultos mais autônomos, felizes, sem preconceitos e abertos para experimentar a vida mais plenamente. Meninos e meninas tem de aprender a cuidar de si mesmos e da casa desde cedo, colaborando com a família. Acho legal menino brincando de boneca e menina jogando bola. Prefiro que ambos usem roupas confortáveis e adequadas ao seu desenvolvimento motor, sem excesso de laços e babados. Não furei a orelha da minha filha quando ela era bebê e deixei esssa decisão para ela tomar quando crescesse. Espero criar meu filho para ser um homem que chora quando tem vontade e que ele se orgulhe disso.

Quem faz o parto?

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Uma das coisas mais importantes para a mulher grávida é planejar seu parto. O momento de dar a luz é cercado de medos, ansiedades, mas também de sonhos e expectativas. Na nossa sociedade contemporânea, o parto deixou de ser assunto de mulheres e se tornou especialidade médica, retirando nossa autonomia e depositando os rumos desse processo absolutamente fisiológico nas mãos de profissionais. Até a geração de nossas avós, os partos eram feitos em casa e geralmente assistidos por uma parteira, mulher experiente, mas sem formação profissional. Se é fato que a medicalização do nascimento salvou vidas, é também verdade que gerou um comércio que ampliou excessivamente o número de intervenções desnecessárias e perigosas. O Brasil é recordista em número de cesarianas. Enquanto a Organização Mundial da Saúde recomenda que no máximo 15% dos partos sejam cesáreos, por aqui a taxa chega a 43%. Na rede privada, onde é cada vez mais frequente a marcação antecipada da cirurgia, este índice chega a mais de 80%. A anestesia epidural, apresentada como miraculosa promessa de parto sem dor, também não está livre de complicações e consequências indesejáveis, não devendo ser utilizada de forma indiscriminada.
Na contramão disso, muitas mulheres vem optando pelo parto natural e mesmo pelo parto domiciliar, sem intervenções ou com o mínimo possível delas. No entanto, a realização desse sonho, que parece tão corriqueiro, esbarra num obstáculo muitas vezes instransponível: o obstetra. A maior parte dos médicos acredita que são eles, e não as mulheres, que “fazem o parto”. Portanto, se acham no direito de definir procedimentos, datas e tudo o que diz respeito ao momento do nascimento. No entanto, sabemos que quando o parto é realmente natural, fisiológico, quem está no comando é a mulher. O médico somente assiste ao parto.
Nas consultas é raro o médico que vai se opor de cara ao parto natural. A maioria apóia. Mas na hora P é que você conhece verdadeiramente o seu médico. No meu primeiro parto, eu estava totalmente voltada para fazer o natural. Minha filha ia nascer na Casa do Parto Nove Luas, fiz curso de gestantes, nem pensava em cesariana. Como ela passou um pouco da data, na 41a semana o médico resolver partir pra cesariana, coisa que eu nem cogitava. Como senha para a minha aceitação do parto medicalizado, a expressão mágica “sofrimento fetal”. Quando um médico fala isso para uma grávida, ainda mais recém-saída da adolescência e mãe de primeira viagem, as portas da cesariana se abrem. Resultado: uma gravidez excelente, consciente, um lindo processo de gestar e se autoconhecer desembocou numa cirurgia desnecessária. A minha sorte é que tive uma doula e que a cesárea foi realizada na Casa do Parto. Assim, minha filha pode mamar tão logo saiu da minha barriga, tivemos um nascimento na penumbra, ao som da música que escolhemos. O mínimo de respeito ao nascimento foi garantido pelo ambiente da Casa do Parto e pela doula que mandou os médicos, que costuravam minha barriga enquanto eu amamentava minha filha, pararem de debater o desempenho da seleção brasileira de volley.
O sonho de ter a minha filha por parto natural me foi roubado e isso eu nunca terei de volta. Por isso, sempre recomendo às grávidas que tem o mesmo desejo terem cuidado na escolha do obstetra. Não acredite no que ele fala, mas em suas referências, no que você vê e sente. Pergunte na sala de espera quantas mulheres ali tiveram seus filhos com ele e como foram os partos. Informe-se com doulas e parteiras ligadas ao movimento de parto humanizado sobre as suas referências. Empodere-se e não se envergonhe de perguntar TUDO, mesmo as dúvidas mais básicas. E fuja se ele se furtar a responder ou mesmo se disser coisas “deixa isso comigo”, “disso cuido eu”, “tá muito cedo pra você pensar em parto”. Lembre-se de quem está no comando: você, mãe, parideira.
Para quem quiser saber mais sobre esse tema, recomendo o filme Orgasmic Birth.

Um lindo relato de parto

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Adoro ler relatos de parto e o que segue abaixo é um dos mais lindos que já li. Ele está disponível em http://www.amigasdoparto.org.br/2007/index.php?option=com_content&task=view&id=766&Itemid=1

Blanka nasceu em nossa casa PDF Imprimir E-mail
Por Ana Carolina Prestes Silva   
06 de Abril de 2009
…Ninguém dizia nada, éramos pura energia concentrada. A paz e o silencio da madrugada ainda ficaram mais preciosos com uma chuvinha que começou a cair. As contrações vinham e eu comecei a me balançar pra frente e pra trás…
12 de Julho de2008 | Laranjeiras, Rio de Janeiro
Lembranças…
Algumas lembranças do meu primeiro parto começaram a me vir à cabeça na 30a semana desta gestação e daí em diante e muitas coisas começaram a me corroer. Devo esclarecer que o primeiro parto foi natural, sem intervenções e Lara nasceu com muita saúde. Foi um momento lindo da minha vida e guardo até hoje cada minutinho de todas as emoções que senti ao trazer ao mundo a minha menina. Ela ficou comigo o tempo todo desde que nasceu, mamou nos primeiros minutos e ficamos desde então juntas numa enfermaria coletiva onde outras mães me ajudaram a dar os primeiros cuidados (banho, trocas, amamentar) e isso foi muito bacana. Mas era mais do que isso.

Começou a me dar uma ansiedade ruim, com a expectativa do momento da chegada à maternidade, de precisar aguardar na recepção (talvez com muita dor), de me despedir do meu marido (existe a lei, mas lá acompanhante algum entra), deitar naquelas caminhas estreitas, vestir aquela camisolinha mais ou menos, tirar brincos, anéis, meias (adoro ficar de meia) e me dirigir pra uma sala fria-inox, com luzes fluorescentes, com pessoas que nunca vi na vida e pra quê? PRA CONHECER A MINHA PRÓPRIA FILHA QUE ESTAVA DENTRO DE MIM!

Na época do primeiro parto ninguém me falou disso. Eu aprendi a contar direitinhos as contrações, a não me desesperar caso a bolsa estourasse, sabia que não queria e não precisava ser depilada e nem ser cortada na hora do expulsivo. Mas nunca me disseram que eu ficaria quase 12 horas deitada de barriga pra cima (a pior posição pra uma grávida), depois ainda seriam várias horas sozinha esperando o próximo horário de visita (que dura só 1 hora) pra ver uma cara conhecida. Ou que eu só poderia ver minha família por alguns minutos por dia até ter alta quase 48 horas depois de um parto natural sem complicação alguma! Não me contaram que eu ficaria muito insegura na hora do trabalho de parto, deitada de pernas abertas sempre pronta para o próximo toque…e foram muitos, porque eu não dilatava! [ou eu não dilatava porque eram muitos?] Que eu precisaria segurar na mão de alguém, ver uma pessoa conhecida, olhar pra alguém que olhava pra mim. Não me disseram que os alunos que assistiriam ao meu parto iam ficar comentando sobre os novos filmes no cinema (era sexta-feira) e sairiam todos ao mesmo tempo da sala para jantar pizza. E que eu deveria rezar pra minha filha não nascer naquele “recreio”. Nunca soube que a protagonista do meu parto não era a equipe médica, mas eu.

Não agüentei mais e comecei a procurar, no início, timidamente, alternativas, como por exemplo, ficar o máximo possível em casa pro trabalho de parto não ficar travado como foi da outra vez, antes de ir pra maternidade. Descobri boas dicas e conheci pessoas que tinham chegado à maternidade com 9cm de dilatação. Mas pra mim ainda era pouco e não resolvia metade das minhas angústias. Como dizem muitas pessoas que tiveram parto domiciliar e eu agora sei que é verdade pra mim também, “MEDO eu tenho de hospital”. Na maternidade havia passado muitas horas SOZINHA no meio de um monte de GENTE, na ESCURIDÃO de uma sala muito ILUMINADA, num SILÊNCIO profundo em meio a muita CONVERSA. Fiquei com medo das minhas más lembranças de um parto que, apesar de chamarem de natural, foi assistido, monitorado e invadido por pessoas que nunca vi e nunca me viram. E olha que eu estava num hospital escola…poderia se bem pior…
“Meu sonho era parir em casa”
Aos poucos minha mente foi clareando e eu comecei a escutar o que eu mesma dizia várias vezes, como um mantra, desde 2001: “meu sonho era parir em casa” …

Um dia, lá pela 35a semana de gestação, eu acho, conversei sobre isso com o André – porque além de tudo isso, tem o lado dele. Na Maternidade ele ficaria de fora – do lado de fora mesmo – e só receberia um recadinho tipo “Quem é o André? Vc? sua filha nasceu e está tudo bem. Volte de 11h às 12h para o horário de visitas. De bermuda não entra.”. Depois que falei, lamentei e filosofei sobre estas minhas angústias, chegando ao sonho que sempre tive de ter um parto domiciliar, ele, calmamente, me olhou com aqueles olhos azuis que sempre me acolhem e disse: e por que não faz? Só fiz abraçá-lo como se fosse o maior tesouro (e é, né) da minha vida e chorei por 20 minutos sem parar…
Daí em diante comecei a pesquisar sobre o assunto e conheci várias pessoas que me ajudaram me enviando relatos, muitas das vezes dos próprios partos, dando dicas de vídeos, sites e textos. Depois de ler o relato do nascimento da Tami, que foi em casa, porém desassistido, minha confiança na minha capacidade de gestar e parir apareceu. Eu me vi pronta para ter Blanka em casa. Eu e a minha natureza de mulher mamífera que sabe o que quer, que quer o melhor para suas crias e não desiste dos seus sonhos.
Após a leitura de muitos relatos de parto (decisivos pra toda mulher grávida) fiquei até com dor de cabeça de tanto chorar e soluçar…e admirar suas experiências, seus partos, suas crias e suas palavras…não cabia em mim de emoção. Entendi que, hoje, muito mais do que há 7 anos, no primeiro parto, tenho consciência da minha capacidade de decidir e que fosse onde fosse minha menina nasceria – talvez não da melhor forma – mas da melhor mãe que eu poderia ser.

Como disse a minha madrinha e doula virtual (amei isso) Marilyn: “Parto é parecidíssimo com lagarta virando borboleta. Acontece, amadurece e nasce.” E foi assim.
Da busca ao encontro com a parteira
Lendo um relato lindo de parto numa comunidade sobre PARTO DOMICILIAR achei pela primeira vez alguém do Rio que falava de PD. Era o Gustavo, pai da Aurora, que com uma sensibilidade ímpar descrevia o trabalho de parto e o nascimento da sua filha. Me emocionei muito com o relato e gostei da forma como ele descreveu o contato e o trabalho da parteira. Entrei em contato com ele, e em seguida já tinha achado a minha parteira. E foi amor à primeiro vista.

Depois de conversar com ela pelo telefone fiquei muito emocionada e feliz com a possibilidade de parir na minha casa ao lado do meu companheiro e da minha filha, com pessoas que acreditam de verdade, como eu, na capacidade do meu corpo parir naturalmente. No primeiro encontro, em minha casa, parecia um sonho. Marilanda me contava sua vida, sua experiência acadêmica e de vida e eu a admirava cada vez mais. Ela me contou várias histórias de partos lindos, mostrou fotos, quis saber sobre a minha vida, minha família, como eu estava pensando no meu parto, o que eu queria fazer com a placenta, me tirou mil dúvidas. No finalzinho ainda escutamos o coraçãozinho da Blanka  e ela me fez um exame de toque. Coisa mais delicada do mundo, nem parecia uma consulta de pré-natal. Imagina eu sendo examinada na minha cama ouvindo música caboverdiana (que eu amo) e na penumbra do abajour! Tive certeza que era aquela mulher cheia de história pra contar, com muita vontade de mudar o mundo e ao mesmo tempo de uma doçura encantadora, que eu queria comigo no meu momento de parir.

As Arianas: encontro com a minha doula

No dia seguinte ao encontro com Marilanda, conheci minha doula e foi sintonia total. De cara. Duas arianas se entendem bem. Ela mora perto da minha casa, no mesmo bairro, numa ruazinha super tranqüila e numa casa deliciosa que você esquece que está no Rio [onde eu queria morar…hehe]. Com essa calma e o maior silêncio comecei tirando os sapatos, nos sentamos para conversar e ela me pediu pra falar como cheguei ali. Contei a minha história desde o parto natural hospitalar até a minha busca no orkut por uma solução para as minhas aflições, os relatos e vídeos, do meu encontro comigo mesma em cada um destes relatos e o dia que o André mandou o já celebre “por que não?”. Ela ouvia atenta e entusiasmada com a rapidez com que tudo aconteceu e aos poucos eu fui relaxando e ela me conhecendo um pouco mais. Conversamos sobre a gestação, sobre a Blanka. Nunca haviam me perguntado como a Blanka é – acho que as pessoas não pensam que ela já é alguém né? Contei que já tinha tido duas oportunidades de me aproximar mais dela: a primeira quando ela estava pélvica e depois quando se enroscou no cordão. Conversei várias vezes, com muito carinho, pedindo que mudasse de posição e se desenrolasse do cordão e sempre funcionava. Ela também ficava bem quietinha quando o pai punha a mão na barriga quando a seqüência de chutes estava frenética demais pra mamãe ter sossego. Depois partimos para uma outra sala com grandes almofadas, uma cama daquelas de massagem, algumas mandalas, bolas, tapetes de ioga e outras coisas que nunca tinha visto. Primeiro ela me pediu pra ficar na posição que quisesse e começou a me explicar sobre a formação do embrião, depois me mostrou um modelo de gesso de uma bacia com um períneo de borracha dentro…achei fantástico e aquele modelo me foi muito útil dali em diante porque nunca tinha imaginado como era. Aprendi a fazer algumas respirações e posições que também usei muito nos dias seguintes até o parto. Vivia fazendo pose em casa. Acho que a gente podia ser doulada sempre, grávida ou não.

Programa dominical: parteira conhece a família
Marilanda passou uma manhã de domingo conosco em casa conhecendo André e Lara. Conversamos muito, ela conversou com ambos e, no fim da manhã, todos nos reunimos na minha cama pra mais uma consulta do pré-natal. Se eu já estava deslumbrada em fazer o pré-natal sozinha com ela em casa imagina o quanto não fiquei com meu marido e minha filha junto. Foi muito bom ter os dois ao meu lado (literalmente, porque a Lara estava deitada do meu lado abraçada comigo o tempo todo) Escutamos o coraçãozinho da Blanka, Lara examinou André e sua ursinha Sabrina, pra ver se estava tudo bem com a família toda. Ela também ajudou Marilanda a fazer um suco que eu tomo todos os dias e que chamamos de “suco da vida” porque até o bagaço serve pra adubar as plantas. Resultado do dia foi que Blanka ainda estava alta e André poderia viajar sossegado (ele tinha uma viagem marcada para a minha 40a semana de gestação). Ainda me preocupava a proximidade da festa junina da escola da Lara e da festinha de aniversário dela programada para 2 dias depois da data provável do parto.
A placenta
No primeiro encontro com a parteira ela me perguntou se eu já tinha pensado no q fazer com a placenta. Confesso que eu nem sabia que tinha que fazer “algo” com ela. Simplesmente porque nunca tinha visto uma placenta. Ela me deu algumas opções, mas a que eu achei mais bonita e mais condizente com a nossa realidade foi plantar. Minha amiga Marilyn me ajudou de novo…rsrsrs…me dando o bizú de como, onde e porque plantar. Comentei com a Tati, uma amiga muito querida que mora em Itaipu e ela se apaixonou pela idéia. Na mesma tarde de domingo que Marilanda tinha vindo ela nos presenteou com um vaso lindo e uma mudinha de árvore da felicidade sob a qual vamos plantar a placenta da Blanka e um dentinho da Lara que acaba de cair. A placenta foi plantada alguns dias depois do nascimento por esta mãe-coruja, aos prantos, relembrando as emoções do dia do parto e está em nossa casa.

O show só começa quando está tudo pronto

Pra lá de 40 semanas e nada de Blanka querer nascer. Eu estava tranqüila, André também, e também, pudera: ele viajando, Lara prestes a fazer uma festinha na escola, nada de berço e carrinho, nem o plástico pra forrar a cama, e nem o padrinho tinha sido comunicado. Mas a família e os amigos não perdoavam, o telefone não parava de tocar e me todos a me escrever perguntando “que dia vai nascer”, “até quando vou esperar”, “por que não marco logo”, “a Blanka não passou do tempo”e outras coisas mais. Nos dias que antecederam o parto fiquei em casa reclusa como um bicho prenho. Em casa, concentrada. Só via André e Lara na minha frente. Só me concentrava em me preparar para o parto. Sabia que daria tudo certo. Era certeza.

Quando André chegou de viagem, Lara curtiu sua festa, compramos tudo que faltava, o padrinho foi convidado e aceitou “com muito gosto” e eu relaxei de TUDO que ainda faltava, era uma sexta-feira. Lara teve a aula aberta de piano antecipada em 3 dias e acordamos cedo pra ela tocar às 08h00. Ela estava meio resfriada e depois da aula fomos pra casa e não a mandei pra escola. Embora tivesse acordado super cedo não quis dormir durante o dia e ficou desenhando. Diferente de mim, que apaguei num sono profundo por várias horas da tarde. À noite, porém, ela dormiu cedo, eu fiquei sem sono deitada vendo TV enquanto André não chegava do escritório. Passava o filme “Um pai de família” na TV à cabo e na metade do filme André chegou. Já tínhamos assistido a saga do homem de negócios que um belo dia se vê como um pai de família, frente aos desafios de amar e cuidar de outros que não ele. Mas continuamos assistindo ao filminho.
Aproximadamente meia-noite e dez levantei do sofá pra fazer xixi (pela centésima vez) e quando voltei achei que tinha corrido uma aguinha pelas pernas. Sentei, levantei de novo e outra aguinha. Olhei pro André e disse “acho que é a bolsa”. Sentei e levantei de novo. Escorreu de novo. E ele: “é a bolsa”. Eu ri feliz. Havia chegado a hora. Sentei no chão, sobre um edredom e ele ligou pra Marilanda. Ela perguntou se havia contrações, eu disse que não e ela ficou de chegar em 1,5 hora. De repente senti a primeira contração. Avisei ao André e ele começou a marcar os intervalos. Já começaram de 5 em 5 minutos, de 4 em 4 e lá pela quinta contração o intervalo já era de 2 minutos. E nós dois assistindo ao filme na maior paz. Depois de algum tempo fui pro chuveiro e ele ficou cochilando na sala com o relógio na mão. De luzes apagadas, fiquei sob a água bem quente nas costas, debruçada nas torneiras com a cabeça baixa (que posição ótima…queria ficar ali pra sempre!). Debaixo d’água eu quase não sentia as contrações e os intervalos diminuíram para 1 minuto e meio. Depois de quase 2 horas desde o primeiro sinal nada da Marilanda chegar e o André achando que ia aparar a criança ligou pra ela brincando que ela ia perder o parto. Ela perguntou se as contrações já estavam de 10 em 10 minutos e ele, rindo, disse: não, de 1 em 1. E eu no chuveiro tranqüila.
Quando ela chegou eram 02h00. Fomos pro quarto fazer o toque e eu já sentia contrações beeem mais fortes. Preparei o CD que queria ouvir. Estava com 6cm de dilatação. Tudo fluindo. As contrações vinham e eu inspirava profunda e lentamente e expirava imaginando coisas bonitas como fotos e vídeos de partos. Voltei pro meu cantinho na sala sobre o edredom, mas resolvi ir mais uma vez pro chuveiro, mas já não queria ficar lá. Quando saí ganhei o abraço da Kira, minha doula, que acabara de chegar. Eram 02h30 e estava todo mundo pronto. Voltei pro cantinho do edredom, agora ajoelhada no chão com os cotovelos no assento do sofá sob uma fraca luz. Senti que “o local”era ali desde o início. As contrações vinham e eu inspirava. E Kira inspirava comigo. Ela ficou abraçada a mim e ao meu lado durante a hora que se seguiu. Quando vinham as contrações ela me massageava nas costas e inspirava ao meu lado para eu não perder o ritmo e ficar ofegante. Fiquei concentrada demais nestas respirações e muito consciente de que tudo corria como previsto e o trabalho de parto evoluía brilhantemente. Acho que após meia hora Marilanda me fez outro toque ali naquela posição mesmo e a dilatação já era total.
Lara dormia. André me observada com seus lindos olhos azuis solidários e me dizia com sorrisos por demais confortantes, que estava ali se eu precisasse. Era o que eu queria dele e ele me deu o tempo todo. Eu e Kira cada vez nos tornávamos mais próximas e a cada contração que inspirávamos juntas eu sentia dores mais fortes. E sabia que isso era bom. Ninguém dizia nada, éramos pura energia concentrada. A paz e o silencio da madrugada ainda ficaram mais preciosos com uma chuvinha que começou a cair. As contrações vinham e eu comecei a me balançar pra frente e pra trás, o que me aliviava bastante, juntamente com as compressas quentes e massagens nas costas que Kira me fazia. Eu sentia Marilanda se movimentar com sutileza e silêncio. Sentia que estava chegando ao fim. Entre as contrações só lembrava de que aquilo era meu sonho virando realidade, que era tudo que eu sonhei e mais um pouco. Ficava feliz por ter conseguido e insistido no meu sonho. Aí vinha mais uma contração. Kira inspirava ao meu lado, eu inspirava com ela e ela me massageava.
Outro intervalo e eu pensava em Blanka descendo, fazendo um mergulho que eu já tinha feito quando nasci e que também ajudei Lara a fazer há 7 anos. Às vezes eu a chamava docemente “vem, Blanka, vem, minha filha” e sentia que ela vinha, que as contrações se intensificavam e que estava mais perto. Depois de algum tempo comecei a sentir que estavam fortes demais, não conseguia mais inspirar com tanta tranqüilidade e perguntei a Kira “está acabando, não está?” Ela fez com a cabeça que sim e me abraçou. Lembrei que quando a gente acha que não agüenta mais é porque vai nascer. Me concentrei outra vez. Marilanda disse que faltava pouco, que ela estava descendo. Achei que ainda faltava alguma coisa pra eu fazer força e não fiz. Achei que ainda não era hora. Neste momento ouço pela primeira vez a voz do André: “vamos, bebê está acabando, vamos” e vi o sinal verde. Confiei nele e senti que era hora. Fiz força. Nas últimas 6 ou 7 contrações eu fazia força e grunhia pra ajudar na força. Lara acordou e veio pra sala meio sonolenta e assustada. André explicou a ela que a irmã estava nascendo, que ela também nasceu assim e que no final é um pouco mais difícil mesmo. Perguntou se ela queria ficar e ela disse que sim. Senti coroar e falei “Ai, ta queimando”. Marilanda disse: “ela está vindo”. Ainda com a sensação de queimação (o círculo de fogo pega fogo mesmo!) coloquei a mão e senti o topo da cabecinha. Aquilo me deu toda a força que eu precisava. Blanka estava nascendo. Mesmo!
Imaginei ela ali saindo de dentro de mim e na contração seguinte fiz toda a força que podia, pensando nela saindo suavemente. Foi o que aconteceu e eu senti direitinho a cabeça escorregando pela minha bacia. Fiz força de novo e, já sem sentir dor, senti o mergulho de Blanka no mundo como o vídeo que assisti do nascimento da baleia beluga na água. Ouvi um gemidinho. Era ela. Blanka tinha nascido. Eu agradeci a Deus chorando de emoção. Ao meu lado Lara dizia animada: “minha irmã nasceu! minha irmã nasceu!” Eu a olhei com os olhos cheios de lágrimas, com o peito transbordando de alegria por ela ter visto a irmã nascer e disse: “viu? nós conseguimos, filha!” Procurei André e ele continuava na cadeira me olhando esperando eu olhar pra continuar a me dizer com olhos “estou aqui”. Ele sorria com satisfação. Procurei Blanka. Ela estava embaixo de mim, segura por Marilanda. Eu estava de costas e ainda com o cordão. Perguntei como fazia pra virar (e todos riram).
Eu virei, sentei e, tremendo de emoção, recebi minha menininha. Tão pequena, tão linda, tão perfeita. André filmava emocionado e eu disse: “foi feita com muito amor”. Senti mais umas contraçõezinhas e logo a placenta saiu. Kira, que adora placentas, foi logo guardá-la. Lara maravilhada com a irmã procurava a roupinha pra ela usar. Blanka mamou, eu comi uma banana e fui tomar um banho. Marilanda e Kira me fizeram um suco e depois de arrumar as coisas foram embora. Eram 06h00 e a família, agora com 4 membros, deitou na cama para dormir mais feliz do que na noite anterior. Não conseguíamos parar de olhar pra ela ali na nossa cama tão quietinha e serena. Dormimos algumas horas. Nossa vida mudou e somos muito diferentes depois desta experiência. Ter filhos é a melhor coisa do mundo, mas ter em casa, no meio de nossa família acrescentou uma mágica indescritível.

Agradeço ao meu amor, André, por ter confiado desde sempre, me dado força para que todos os meus sonhos se realizassem e por me completar e me compreender tão perfeitamente. À minha amada filha Lara por existir e me ensinar o que é amar. À Marilanda, minha parteira, que soube nos acolher em cada minuto desde que nos conhecemos, tornando tudo simples e tranqüilo. Me diz o que e quando preciso ouvir e me ajudou a realizar meu sonho com prazer e segurança.  A minha doula Kira, que, com seu trabalho e carinho pariu junto comigo. Vocês duas agora são da nossa família! Às queridas amigas Mamíferas Radicais que foram decisivas para minhas escolhas e me mostraram que é possível ser eu mesma. É duro, mas é possível e gratificante! A todos da lista Parto Nosso, sempre na luta (que agora é também minha) em divulgar a humanização do parto de modo tão doce e ao mesmo tempo com tanta seriedade. A todos que dividem suas histórias em belos relatos de parto, contribuindo (da mesma maneira que espero estar fazendo agora) para que o parto volte a ser o que na verdade sempre foi: um acontecimento natural de amor.

E a Deus, que permite milagres como o que aconteceu em nossas vidas.

[Relato de Ana Carolina, uma mulher que adora gestar e parir, nascida em abril de 1980, de um parto normal hospitalar; casada com Andre, que nasceu naturalmente no auge de seus 5,150kg em agosto de 1957, carequinha e com um belíssimo par de olhos azuis; mãe da doce Lara, uma mocinha muito falante que nasceu sem intervenções, após um trabalho de parto de 12 horas na Maternidade Escola da UFRJ em julho de 2001 e da pequena Blanka,  uma canceriana muito tranqüila e esperta, nascida numa madrugada de chuva fina, em casa, sob os olhos emocionados de seu pai e sua irmã em julho de 2008. Todos na foto abaixo]

Ana Carolina Prestes Silva, 28 anos, Bacharel em Letras, São Pedro da Aldeia-RJ. Contato: acarolprestes@gmail.com
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